A aprovação em redação final do texto que autoriza a permuta de áreas entre a Prefeitura de Americana e a empresa Dide Eletrometalúrgica derruba mais um véu da frágil estrutura representativa da Câmara, constituída em defesa dos interesses dos cidadãos americanenses. Depois de endossarem a polêmica cessão de ruas para a Neotextil, numa discussão que ignorou os aspectos legais em detrimento da geração de empregos e de receita para os cofres municipais, os vereadores repetiram tal leviandade dizendo "sim" a uma proposta recheada de questionamentos.
O texto foi aprovado na última quinta-feira, em meio ao confuso debate acerca de sua constitucionalidade e do montante a ser devolvido como troco pela empresa na permuta. Os parlamentares que defendiam a ilegalidade da propositura - leia-se oposição - foram facilmente engolidos pela tropa de choque do prefeito Diego De Nadai (PSDB), movida pelo discurso desenvolvimentista e pelo argumento de que a Lei Orgânica do Município se sobrepõe à Constituição Federal. Dos valores estudados para compensar a diferença de dez mil metros quadrados entre uma área pública de 36,6 mil m² e uma privada de 26,6 mil m² - R$ 584.994,75, R$ 849.980,39 e R$ 1,115 milhão -, é claro que prevaleceu o menor. Nesse caso, o erário foi sacrificado em nome do progresso.
Por traz dessa manobra, extremamente nociva aos patrimônios material e político de Americana, existe outra coincidência. Além de se ancorar em um projeto envolvendo empresas e geração de empregos e impostos, o episódio teve como grande protagonista um vereador. Um parlamentar com histórico contestador, que fomentou a discussão, se entrincheirou com a oposição em defesa do cumprimento da lei e em defesa dos recursos públicos, mas que, no momento-chave do debate, recuou e se alinhou aos interesses do prefeito - ele disse que pensou no município.
Guardadas as devidas proporções, o peemedebista Reinaldo Chiconi é o tucano Antonio Carlos Sacilotto de 2009. Quem não se lembra da polêmica cessão de ruas à empresa Neotextil? Naquela oportunidade, o parlamentar tucano - também "fiel da balança" - se disse obrigado pelo partido a dizer "sim" a um dos projetos mais controversos da recente história de Americana.
Ao avaliar mais uma vitória no Legislativo, o prefeito elogiou a atitude do colega de partido e criticou a turma "do contra". "Se a gente apresenta um projeto de ouro, querem de prata. Se a gente apresenta um projeto de prata, eles querem de ouro", disse Diego. Agora, resta ao administrador tucano agradecer aos que buscam as duas coisas.
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