Como é delicado lidar com a morte de alguém querido. Por mais que se saiba que a pessoa viveu por muitos anos, sempre esbanjando vitalidade, bom humor e sabedoria, e que no final da jornada precisava mesmo partir para o andar de cima por conta do desgastante sofrimento terreno (para si e para os próximos), é complicado dizer adeus. Saber que nunca mais vamos encontrar com aquele ser querido.
Essa semana me despedi de uma pessoa muito, muito especial. Dona Olga me viu bebê e acompanhou minha maravilhosa infância até os seis anos, diariamente. Morava com minha família numa casinha aos fundos da casa dela, na Vila Medon. Apaguei muitas velinhas e curti muita gente cantando "é pic, é pic" para mim naquele quintal... Graças a Deus, meu pai sempre foi um apaixonado por fotografias e tudo está registrado para a posteridade.
Mas as lembranças das coisas mais simples estão na memória. A ida sagrada toda noite para a sala da casa de Dona Olga, onde me aguardava com um lanche especial: uma caneca de alumínio toda amassada, cheia de refresco (Ki-Suco, lembram-se?) acompanhada de bolachas ou torradas. Seu vocabulário tão particular e os palavrões que ela soltava debochadamente, mas de uma forma tão engraçada que ninguém a reprimia. Um deles eu aprendi ainda pequenininha, e meu pai fica louco da vida quando soltava, mesmo que trocando as letras...
Foi nessa época que também tive as primeiras noções de alfabetização. Alair, a filha de Dona Olga, é professora, e muito pacientemente me apresentou às letras, que bons anos mais tarde se tornariam uma das ferramentas principais da minha profissão.
Os anos passaram, cresci, virei jovem, adulta, me formei, namorei, me casei e nunca perdi o vínculo com essa senhora tão folclórica e amável. Para mim, era como se fosse a terceira avó, pois, na ausência das legítimas, que sempre moravam longe e só nos víamos nas férias, Dona Olga cumpria bem o papel, dando bala, doce e deixando-nos fazer tudo o que as avós costumeiramente permitem que os netos façam.
Essa semana ela partiu, aos 88 anos. E desde o momento que soube do seu adeus, muitas lembranças vieram à tona. Só que mais uma vez, me deparei com a dificuldade de lidar com a morte, algo que talvez seja comum a muita gente. Todos sabem que um dia ela vai chegar, mas não somos preparados para essa passagem. Se é que existe um melhor jeito de morrer, gostaria que fosse dessa maneira: aos 88 anos, com a sensação de trajetória cumprida, deixando só lembranças boas, uma vida bem vivida e nunca dada como perdida.
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